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Gestores extraordinários ou puramente humanos?

Luiz Grecov
@luizgrecov

Por que, em pleno 2017, atitudes não mais do que humanas, são vistas com tanto espanto? Sim, sem dúvidas, os dois profissionais citados merecem todos os elogios feitos a eles, mas será que esse tipo de comportamento já não deveria ser algo visto como “normal”?

Por que atitudes meramente humanas são vistas com espanto? Claro, bons gestores merecem elogios, mas respostas empáticas não deveriam ser o “normal”?

Nos EUA, uma programadora envia um e-mail para seus colegas de trabalho informando que tiraria dois dias de folga para cuidar de sua saúde mental.

Aqui no Brasil, uma funcionária de um hotel envia também um e-mail para sua gerente, pedindo para não trabalhar no período das 21h30 às 23h30 durante nove domingos. O motivo? Ela queria assistir a nova temporada do seriado Game of Thrones.

 

Bons líderes merecem elogios, mas respostas empáticas não deveriam ser o “normal”?

 

O que há de comum entre essas histórias?

Em comum entre essas duas histórias, mais do que um pedido de folga, a resposta dos gestores. No primeiro caso, o próprio CEO da empresa, Ben Congleton, respondeu à mensagem. De modo surpreendente, ele agradeceu sua colaboradora por lembrá-lo da importância de cuidarmos de nossa saúde mental. Mais do que isso, disse-lhe “você é um exemplo para todos nós, e ajuda a romper o estigma para todos nós estarmos 100% para trabalhar”.

Já no caso que aconteceu por aqui, Amanda Jarces, a gerente do hotel, não cedeu as folgas como desejava a funcionária, mas informou-lhe que ainda assim ela poderia acompanhar a série pois todos televisores do hotel estariam ligados na emissora que transmite Game of Thrones. Do mesmo modo que Congleton, Amanda mostrou-se solidária ao sentimento de sua funcionária, dizendo-lhe que a iniciativa foi tomada pois “a batalha final começa dia 16/07 e nós também estamos ansiosos para assistir o desfecho dessa história”.

Outra semelhança entre os dois casos é que eles ocorreram na mesma semana e chamaram bastante atenção, na mídia e nas redes sociais, gerando comentários diversos. Enquanto alguns se identificaram com as situações e compartilharam suas próprias história, outros – possivelmente a maioria – lamentaram não terem recebido o mesmo tipo de tratamento e compreensão.

 

Atitudes… humanas

Independente do teor dos comentários, chama atenção a repercussão gerada. Por que atitudes não mais do que humanas, são vistas com tanto espanto? Sim, sem dúvidas, os dois profissionais citados merecem todos os elogios feitos a eles, mas será que esse tipo de comportamento já não deveria ser algo visto como “normal”? Será que essa não deveria ser a postura de quem está em uma posição de liderança e deseja ter o melhor daqueles com quem trabalha? Aliás, Congleton também levantou esta questão em um post publicado no Medium.

No fim, tanto ele quanto Jarces souberam reconhecer e ser empáticos com a necessidade de seus colaboradores e trouxeram à tona um assunto já tratado por nós no primeiro texto que publicamos por aqui: a possibilidade de sermos nós mesmos e nos expressarmos de modo autêntico no local de trabalho. As reações a essas histórias só reforçam a ideia de que é impossível dissociar o ser humano do ser profissional e mais do que nunca precisamos de um ambiente de trabalho aberto ao acolhimento, sem julgamentos. Os dois casos, aliás, são emblemáticos nesse sentido pois enquanto que um deles envolve saúde mental, um grande tabu para muita gente, o caso envolvendo o seriado poderia ter sido encarado como irrelevante por algum outro gestor.

Histórias assim são importantes para nos despertar do modo automático e nos fazer olhar para o outro como alguém que, assim como nós, tem necessidades e limitações. Por enquanto, fica a lição e também o desejo de que práticas como essas sejam cada vez mais comuns até que chegue o momento em que elas – tomara! – não precisem mais chamar atenção.

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