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E agora? O líder está nu!

Joy Baena
@joycebaena

Uma guerra silenciosa acontece. O que funcionava antes já não funciona mais porque as regras mudam o tempo todo. Os negócios passaram a ver o cliente, pois sem ele não há venda. As empresas olham para as pessoas, pois sem elas não há produto. E o líder, como está?

Uma guerra silenciosa acontece. O que funcionava antes já não funciona mais porque as regras mudam o tempo todo. E o líder, como está?

– Que lindas vestes! Fizeste um trabalho magnífico! – exclamou o rei, não querendo admitir que nada via ali, sobre a mesa de trabalho do “alfaiate”. Claro, porque se o fizesse, mostraria a todos sua suposta falta de inteligência. Mostraria a todos uma fraqueza que, para ele, era inadmissível para alguém em sua posição. Os nobres, ao seu lado, suspiravam também em falsa admiração, nenhum deles disposto a questionar a realeza ou fazer com que os demais pensassem que eram incompetentes ou incapazes.

Escolhi começar esse artigo com um trecho de uma livre adaptação do conto “A Roupa nova do Rei”. Esse conto é uma ótima metáfora para retratar a crise que o líder enfrenta na tarefa de liderar nos tempos atuais.

Voltemos uns bons 20 anos. Ser líder significava pensar, organizar estratégias e demandar tarefas. Ser líder era ser respeitado, ouvido e obedecido. Os modelos de educação eram perfeitos para formar as pessoas que viviam no sistema que vou chamar aqui de “comando-controle”.

 

Vamos entender melhor

Agora, feche os olhos por um momento e procure lembrar quando você estava sentado ou sentada na sala de aula, lá nos tempos idos de sua infância. Conectou? Qual o sentimento que se apoderava de você ao ficar em dúvida sobre uma questão que o professor tinha acabado de explicar?

  • Nervosismo?
  • Medo de se expor?
  • Medo de ser criticado ou de parecer burro?
  • Ou até mesmo medo daquele olhar fulminante que deixava clara a sensação que a culpa por não entender era sua.

Agora, imagine a casa em que viveu quando criança, lembre-se de seus familiares e me diga se já escutou alguma dessas frases:

  • Engole o choro ou vou te dar razões para chorar de verdade.
  • Cala a boca quando adulto está falando.
  • Pare agora com frescura!
  • Você precisa ser o primeiro, precisa ter as melhores notas!
  • Os fracos não tem vez!
  • Você pergunta demais!

 

Ou você é o líder que comanda, ou o perfeccionista que executa

Esse tipo de educação nos colocou, por muito tempo, em 2 grandes papéis na sociedade: ou nos tornávamos os líderes que ditavam as regras de comando e controle, primando pela inteligência e eficiência suprema, sem nunca cometer erros; ou nos tornávamos os especialistas obedientes e perfeccionistas. Tínhamos empregos que duravam uma vida, aposentadoria garantida e famílias obedientes, perfeitas e felizes aos olhos da sociedade.

Qualquer coisa fora disso era considerado fracasso ou visto como revolução, transgressão, vitimismo, ativismo ou protesto.

“Fomos anestesiados em nossos sentimentos e emoções porque precisávamos parecer inteligentes”
Brené Brown, pesquisadora e autora de bestsellers sobre vulnerabilidade e constrangimento

O modelo comando-controle esculpiu em nós que “sentir” e “se emocionar” era sinal de fraqueza. Que a aula de arte era uma grande bobagem sem fundamento e que ser inteligente, era ser bom em ciências exatas. Inteligência era sinônimo de ser racional, calculista. Que era preciso experimentar e comprovar padrões, visando a perfeição. As regras eram criadas por homens que detinham o conhecimento e a informação.

Esse modelo foi bom e necessário por um tempo por que nos permitiu alimentar, vestir e promover moradia para as pessoas que estavam nascendo no mundo. Mas de repente, em menos de 200 anos, passamos de 2 para 7 bilhões de habitantes e essa explosão demográfica nos colocou em uma situação difícil. Como atender as necessidades de tanta gente?

Com a chegada da prensa, as informações começaram a circular de maneira nunca antes imaginada. Lutero, ao traduzir a bíblia para o alemão, promoveu uma grande revolução de pensamento. Quanto mais as pessoas sabiam, mais conseguiam emitir opinião e, de fazedoras obedientes, passaram a questionar suas funções.

Depois de um tempo, era preciso organizar tantas informações. Eis que nasce uma grande rede neural que cria a possibilidade de levar a todos os habitantes do planeta as informações que precisavam para viver.

O que não esperávamos é que iríamos avançar tanto nisso, que a própria rede que criamos acabaria por tirar nosso poder de controlar pessoas e organizações.

O acesso ilimitado a informações permitiu a qualquer pessoa questionar, comentar, argumentar e se tornar um produtor de novos conteúdos. A inteligência artificial vem com tudo, organizando essas informações de forma a promover negócios que entendem nossos gostos e preferências e nos dão, em tempo real, respostas a qualquer tipo de dúvida. O mais assustador de tudo isso é que esse controle de dados permite à máquina assumir as rédeas de tudo o que pode ser padronizado e controlado, colocando, nós seres humanos, em dúvida sobre nossa própria atuação futura.

 

E o que isso impacta em nossas vidas?

Não podemos seguir adiante nesse artigo sem olhar para os negócios que nasceram na era da internet. Netflix, Youtube, Airbnb, UBER, Amazon. O que esses negócios têm em comum? Todos eles oferecem um serviço feito sob medida, na hora que você quiser e adequado ao seu perfil. E essa simples característica está criando em nós um senso de urgência e uma agilidade nunca antes imaginada. Nossas crianças e jovens passaram a acreditar que tudo é feito para elas, na hora em que desejam e isso gera um comportamento perigoso: nunca fomos tão ansiosos e impacientes com que o que não está de acordo com nossas vontades. Passamos a viver numa bolha perfeita, feita para nós e na hora que desejamos.

Temos uma guerra silenciosa acontecendo bem debaixo dos nossos narizes. Tudo o que funcionava antes já não funciona no momento seguinte porque as regras agora mudam o tempo todo.

Os negócios passaram a olhar para o cliente, porque sem ele não há venda. As empresas tiveram que olhar para as suas pessoas, porque sem elas não há produto.

Para sobreviver neste novo mundo o líder precisa se adaptar: seja criativo, inovador, relacional! Aceite o erro! Interaja mais, sorria mais, agradeça mais! Seja humano!

Por 200 anos, tentaram nos transformar em partes de uma engrenagem usando como chicote o medo de “ser”. Nos enfiaram goela abaixo o “ter” como benefício maior para a felicidade. Nos disseram que o futuro seria brilhante se nós fôssemos obedientes ao sistema e entendêssemos que dinheiro, status e poder eram a força maior de uma nação. Mas que doce ilusão!

De repente a coisa cai por terra e nos vemos nus diante de uma nova geração mais consciente de si mesma, buscando sentir a grama, o ar e a água. Uma galerinha que faz respiração em grupo, técnicas para estar presente e quer entender o propósito de fazer qualquer coisa. E no meio de tudo isso, vem um médico e neurocientista português chamado Antònio Damásio e diz:

“Não somos máquinas de pensar, somos máquinas de sentir que pensam”

Suas descobertas na área da neurobiologia da mente e do comportamento, com ênfase na emoção, tomada de decisões, memória, comunicação e criatividade colocam em xeque o nosso orgulho de ser racional. Dos invertebrados ao homo sapiens, ele mostra que as emoções são o que condicionam nossos comportamentos como animais, pensantes ou não, há milhares de anos. Como fica então nossa noção de razão quando descobrimos que a emoção é mais rápida e até mais impactante nas nossas tomadas de decisão?

 

Voltemos ao nosso rei do início do artigo

O que o faz acreditar que ali existe uma roupa e sair nu diante de seus súditos, que não seu sentimento de “orgulho”? Como poderia um rei não enxergar uma roupa que só os inteligentes podem ver? E o que fez com que seus súditos não indagassem a sua nudez, se não o sentimento de “medo”? Como poderiam não estar à altura da inteligência de um rei?

A Roupa Nova do Rei é um conto do dinamarquês Hans Christian AndersenSe nossos sentimentos são nossas verdadeiras molas propulsoras, não é a toa que, de repente, o líder se veja “nu” diante de seus liderados. Ele não é mais o dono da informação, perdeu o controle absoluto e nem sequer produz mais medo. E isso faz com que se debata em pesadelos, afinal, esse novo mundo vai contra tudo o que o formou como ser humano.

Inovação, criatividade, mudança. Todas as demandas do “mundo VUCA” leva o líder a ter que interagir mais com as pessoas, perguntar e construir ideias de forma colaborativa. As pessoas querem entender o porquê, querem participar da construção. Só que interagir implica em ser vulnerável: e se eu não souber todas as respostas? E se alguém der uma ideia melhor do que a minha? Ou eu perder o controle da situação?

 

Ser vulnerável é sinal de fraqueza, de fracasso…

Não aprendemos a construir juntos, não aprendemos a ouvir, não aprendemos a entender a subjetividade do outro, suas dores, sentimentos e emoções. Ainda hoje, nossas escolas e universidades ensinam comunicação mostrando dois eixos: receptor e emissor, como se fossemos máquinas que transmitem informação.

Não aprendemos sequer a olhar para nós mesmos, como vamos olhar para o outro? Como mudar o sentimento que o outro está ali para somar ao que eu sei e não competir usando o que não sei? Como lidar com o medo de entrar em um diálogo sem controlar os resultados?

As coisas não mudam do dia pra noite. Ninguém vai ler esse artigo e pronto, começar a agir de outra forma. Estamos falando de romper aqui com algo profundamente enraizado, algo que está em nossa cultura e é base para a forma como nossa sociedade opera.

Verdade seja dita, a mudança está em curso e não temos controle sobre ela. Os dedos já estão em riste, anunciando – O rei está nú! O rei está nú! – e não há outra opção a não ser abraçar a própria vulnerabilidade e fazer disso uma força na hora de se comunicar e se relacionar com as pessoas de maneira mais humanizada e empática. Há um longo caminho para percorrer.

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