Matéria publicado originalmente no OGLOBO.com.

RIO — Com o avanço da tecnologia e a entrada precoce, no mercado de trabalho, de jovens mais afeitos às novas ferramentas de comunicação, surgem novas formas de os profissionais se apresentarem. Uma delas é o videocurrículo, que já é comum nos Estados Unidos e Europa e começa agora a ganhar força no Brasil.

— Com as redes sociais, as pessoas encontraram espaço e voz no ambiente digital, o que trouxe um ganho de exposição e comunicação. Mas é preciso saber usar cada mídia de acordo com a sua função e selecionar os conteúdos com atenção e critério. E isso vale, e muito, para o videocurrículo — afirma Camila Laguzzi, coordenadora de projetos da La Gracia, empresa especializada em comunicação corporativa.

Segundo Camila, o currículo em vídeo traz praticidade e ganho de tempo nos processos seletivos, pois ajuda a levar para a etapa presencial somente aqueles candidatos que realmente demonstraram traços de comportamento e competências que se encaixam na necessidade da empresa:

— O vídeo ajuda o recrutador a entender melhor comportamentos que estão representados no currículo tradicional em forma de adjetivos e experiências profissionais. Além disso, é possível identificar habilidades de comunicação, criatividade, trejeitos e raciocínio lógico. Essa é a verdadeira função do videocurriculo. Não se trata de uma leitura ou reprodução do currículo convencional. Um não substitui o outro, pois cada um tem uma função.

A diferença entre eles, segundo Camila, é a mesma que vemos entre documentos e apresentações. Os documentos, assim como o currículo tradicional, são mais detalhados e seguem uma linha mais descritiva. Já a apresentação traz somente aquele conteúdo que é mais relevante de uma forma criativa e impactante, fazendo uso de recursos visuais.

— O vídeo é um complemento ao currículo escrito, que fica mais interessante quando você conta um caso real, uma experiência ou habilidade com aquele toque pessoal que não pode ser percebido em um e-mail ou papel. O vídeo deve transmitir a ideia de quem você é, como se comporta e como você pode atender à necessidade da empresa. Dessa forma, você mostra criatividade e traz conteúdo realmente relevante.

Vídeo 1: O candidato faz uma “brincadeira” com o processo de seleção que vai eliminando pessoas que não tem qualificações supostamente importantes para o cargo. No final, resta quem?

Embora o videocurrículo seja uma tendência que vem crescendo no Brasil nos últimos anos, Camila admite que muito precisa mudar para que eles dominem o mercado: enquanto os vídeos pessoais ganham cada vez mais espaço, devido à facilidade de acesso aos recursos de produção, no meio corporativo ele entra timidamente.

A coordenadora da La Gracia ressalta que ainda há muita resistência por parte daquelas empresas com perfil mais tradicional, que muitas vezes chegam a bloquear o acesso a canais de vídeos on-line ou a sites de compartilhamento de arquivos (como o hightail ou sendspace) ou mesmo o recebimento de e-mails muito pesados.

— É preciso que aconteça uma mudança cultural no RH e nas empresas para que esse formato ganhe espaço. Por outro lado, empresas de comunicação e tecnologia são mais abertas às novidades. O que eu vejo no curto prazo e que já vem acontecendo é a substituição do currículo tradicional, de papel, por perfis on-line em sites como o LinkedIn ou blogs e sites pessoais. Aquele candidato que tiver um videocurriculo associado ao seu perfil terá um diferencial e um reforço criativo.

Vídeo 2: Talvez por não ficar muito confortável em falar frente às câmeras, a linguagem adotada pela candidata fez toda a diferença para contar de um jeito simples características pessoais que podem agregar muito à empresa contratante.

De acordo com a coordenadora da La Gardia, de nada adianta um vídeo cheio de efeitos e animações, super bem produzido, se o conteúdo for fraco e irrelevante. Listar pontos positivos de sua personalidade ou habilidades que você domina podem gerar antipatia e não mostram nenhum diferencial. É preciso estudar bem o mercado em que se pretende atuar e encontrar necessidades específicas que você pode atender, aconselha:

— Foque na necessidade do outro. Alguém que queira trabalhar como porta-voz de uma companhia aérea, por exemplo, pode contar um caso pessoal de gerenciamento de crise. Em um exemplo ainda mais específico, quem quer trabalhar nos Correios, pode demonstrar preocupação com processos e pontualidade. O importante é encontrar a conexão entre o que você tem a oferecer e o que a empresa precisa ou tem como característica.

Assim como o currículo convencional, o vídeo segue algumas regras e é preciso que o profissional se preocupe com questões mais técnicas para não perder credibilidade, ressalta Camila: cenário, roupas e vocabulário devem ajudar a reforçar o alinhamento entre você e a empresa. Qualidade da imagem e do som também são pontos a serem tratados com carinho.

Vale lembrar, diz a especialista, que o currículo em vídeo substitui uma apresentação presencial formal e, para não causar má impressão, o candidato deve ter os mesmos cuidados que tomaria se estivesse cara a cara com o entrevistador. Se não quiser fazer feio diante do recrutador, confira as dicas para produzir um videocurriculo eficiente:

— Procure ficar à vontade diante da câmera. O ideal é gravar alguns testes antes do vídeo final para se acostumar com o equipamento;

— Seja você mesmo, se mostrando condizente com sua personalidade e o perfil da empresa;

— Grave um vídeo contando alguma experiência pessoal ou profissional, algo que crie a expectativa de que irá trazer um benefício real à empresa. Mostre que você é a solução para os problemas da empresa;

— Produza um material individual para cada empresa e cargo aos quais você deseja se candidatar. O discurso e a mensagem devem ser customizados de acordo com a característica do cargo desejado. Um inspetor de qualidade deve mostrar que é minucioso, por exemplo.

— O videocurrículo deve ser objetivo e ir direto ao ponto. Uma boa dica é apresentar um exemplo de como solucionar um problema em um vídeo de 30 segundos a um minuto. Algo que seja arrebatador. A gravação não deve de maneira nenhuma ultrapassar três minutos.

— Antes de falar, procure fazer um roteiro com os mesmos assuntos do currículo escrito, com apresentação, objetivos, formação e experiência. Procure decorar as informações, evitando ler durante a gravação. Assim, irá passar uma impressão mais confiante;

— Preocupe-se com a postura. Diante da tela, procure sentar-se corretamente, escolhendo um cenário adequado para a gravação, como um escritório ou um espaço neutro e de decoração também neutra. Se o vídeo for feito em casa, evite gravar em ambientes personalizados, como o quarto.

— E lembre-se: o vestuário a ser usado é outro ponto crucial. Vista-se como se estivesse participando de uma entrevista de emprego presencial, ou seja, com roupas formais. Para as mulheres, nada de decote e a maquiagem e acessórios devem ser discretos.

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